O homem e o mundo em contraluz

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Garimpo de Serra Pelada

Olá amigos. A maioria de vocês que me acompanha aqui não sabe, mas o Hipofeu, já foi um fanzine, coisa lá pelos idos do final dos anos 90. Uma invenção dos amigos Roberto Bessa e Wagner Dutra, que me convidaram pra participar também. Não durou muito, mas a idéia continuou viva por todos esses anos, até que eu comecei este blog.

O post de hoje tem exatamente o mesmo tema sobre o qual escrevi na edição impressa (o fanzine) em 199… e alguma coisa, sendo então uma volta às origens. Lembrando que desde o início, em outubro passado, deixei claro que este espaço estaria aberto principalmente para as artes do que para qualquer outro tema. Como já falei bastante de música, natural que agora uma das minhas paixões, a fotografia, permita-me falar de um dos meus heróis.

Sebastião Salgado é mais que um brasileiro reconhecido e bem sucedido no exterior. Um fotojornalista? Sim, mas também um artista, pois o olhar de Tião, como é chamado pelos amigos mais próximos, consegue captar imagens que quando reveladas parecem saltar vivas do papel ou da tela. Retratam pessoas paradoxalmente frágeis e fortes.

Sebastião Salgado

Dono de estilo inconfundível, fotografando sempre em preto e branco, com câmeras Leica, em contraluz, e quase sempre somente pessoas, Salgado embrenha-se nos lugares mais remotos do planeta, geralmente onde a alta tecnologia e a globalização ainda não afetaram rotinas e hábitos de povos com características e problemas distintos.

Sebastião Salgado nasceu no dia 8 de fevereiro de 1944 em Aimorés, Minas Gerais. Vive em Paris. Economista de formação, começou sua carreira de fotógrafo em Paris em 1973. Trabalhou sucessivamente com as agências Sygma, Gamma e Magnum Photos até 1994 quando, junto com Lélia Wanick Salgado fundou a agência de imprensa fotográfica, Amazonas images, exclusivamente devotada à seu trabalho.

Viajou em mais de 100 países para projetos fotográficos que, além de inúmeras publicações na imprensa, foram apresentados em forma de livros, tais como: Outras Américas (1986), Sahel, l’Homme en détresse (1986), Trabalhadores (1993), Terra (1997), Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo (2000) e Africa (2007). Exposições itinerantes destes trabalhos foram e continuam a serem apresentadas internacionalmente.

Foto do Livro "África"

Sebastião Salgado recebeu inúmeros prêmios, é Embaixador de Boa-Vontade para UNICEF e é membro honorário da Academy of Arts and Science dos Estados Unidos. Em 2004, começou um novo projeto, Gênesis, série de fotografias de paisagens, da fauna, da flora e de comunidades humanas vivendo exclusivamente dentro de suas tradições e culturas ancestrais. Este trabalho é concebido como uma pesquisa sobre a natureza ainda em seu estado original e tem previsão de conclusão para 2012.

Foto do Livro "Trabalhadores"

Este texto não é uma análise do trabalho já reconhecido e premiado em diversos países e publicado em livros de sucesso, além dos principais jornais e revistas do planeta. Na verdade, é uma homenagem ao cidadão que muito me ensinou com imagens que registram almas e me fez amar a fotografia como talvez eu ame somente a música dentre todas as artes. Aprecie as imagens que estão aqui no blog, elas dizem muito mais do que eu possa escrever. Ou se preferir vá direto á fonte, no site da Amazonas Images.

Veja o video de entrevista com Sebastião Salgado para o Jornal da Globo para o Lançamento do Livro “África”

Não deixe de comentar e compartilhar. Participe.

Dezembro está apenas começando e promete muitas surpresas aqui no Hipofeu Blog. Um grande abraço e até breve.

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Se o público boicotasse o Lollapalooza?

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Não ia falar de música hoje, porém, não dá pra ficar indiferente a essa história envolvendo Lobão e a organização do Festival Lollapalooza.

Primeiro vou falar da atitude de Lobão. Acho legal alguém comprar a briga do respeito aos nossos artistas e à música brasileira e sugerir o boicote das bandas ao evento, ainda mais depois da hilária entrevista do Perry Farrell à Folha de S. Paulo (confira aqui).

Pode-se chamar Lobão de maluco ou qualquer outra coisa, o que ninguém pode negar é que o cara defende suas ideias, dá a cara pra bater, e não se preocupa em agradar ou não a quem quer que seja. Ponto pra ele. Admiro quem tem coragem de fazer isso. E não se esqueçam de que a criatura lupina já comprou brigas históricas a favor da independência artística própria e alheia, como a numeração de CDs, por exemplo.

Veja o vídeo publicado pelo músico:

O problema é que esse tipo de boicote não funciona, a classe (músicos) é desunida por natureza. Duvida? O debate organizado pela Revista Bizz, publicado na edição de fevereiro de 1988, ao qual inclusive, Lobão e outros (Cazuza, Roger e Marcelo Nova, por exemplo) não compareceram, comprova (texto na íntegra aqui). Também não daria certo o boicote, porque sempre vai ter alguém disposto a aceitar de bom grado os trinta dinheiros ou os 15 minutos de fama.

Honestamente, quem vai a esse tipo de evento, tá louco mesmo é pra ver as atrações gringas, muito por conta da escassez de shows por aqui, que diminuiu muito é verdade, e também por que o músico brasileiro está ao alcance dos olhos e dos bolsos bem mais facilmente e com freqüência indiscutivelmente maior.

A polêmica de regalias aos estrangeiros e problemas com os brasileiros não é de hoje. Pepeu Gomes sofreu no Rock In Rio I (1985), o Ira! também no Hollywood Rock de 1988, se não me falha a memória. É sempre a mesma merda envolvendo qualidade do som, luz, brigas com seguranças e produtores, etc. Quem tiver outra edição da Bizz (de Janeiro de 2000, acho) que fala sobre os 15 anos do primeiro Rock In Rio, também pode conhecer algumas histórias interessantes de bastidores, como os chiliques de Freddy Mercury.

Capa da edição de fevereiro de 1988 da revista Bizz

Talvez fique mais claro hoje, porque a Legião Urbana por exemplo, nunca tocou em Festival, e olha que reza a lenda, que chegaram a oferecer uma noite só para a banda em uma edição do Hollywood Rock. Renato Russo com certeza sabia muito bem como funcionavam as coisas no showbusiness.

Quem tinha que fazer boicote mesmo é o público, ainda mais depois da palhaçada da venda de ingressos para os pré-cadastrados. Já tem cambista vendendo entradas por R$ 900,00.

Não ir e dar um baita prejuízo aos organizadores e patrocinadores seria a única maneira de fazer com que houvesse respeito, organização, e o mínimo de conforto (que faltou no SWU, por exemplo) para quem paga a brincadeira e enche os bolsos de gente como Perry Farrell, que vem correndo pra cá ganhar uns trocados depois que a economia dos Estados Unidos e da Europa está indo pro brejo, e ainda por cima revelar sua ignorância e demonstrar arrogância, como se estivesse fazendo o favor de trazer a civilização para os aborígenes da América Latina (ops, né Perry Farrell?).

Vá fazer festival na China (de economia até melhor que a nossa). Quem sabe a cultura musical deles seja compatível com a sua. Faça um disco que as pessoas amem, venda bastante, e talvez o Jane’s Addiction consiga abrir o show da Ednéia Macedo (veja o video) no próximo Rock In Rio.

Participe, comente, compartilhe.

Um grande abraço e até a próxima semana.

Auschwitz é aqui.

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Olá amigos, infelizmente terei que descumprir a promessa do último post, e voltarei a falar de música na próxima semana, mas vocês não perdem por esperar, pois na próxima quarta-feira falarei de Lulu, o disco gravado por Lou Reed e Metallica, que vem causando bastante controvérsia e só esta semana chegou às minhas mãos, então primeiro ouvirei com calma…

Aproveito também para anunciar que a partir de agora, os posts serão mais curtos, em parte por sugestão de vocês que me acompanham aqui, e um pouco também pela agitada rotina deste blogueiro.

O tema de hoje pra variar é espinhoso. Acredito que todo mundo já ouviu falar ao menos uma vez na famosa cracolandia, localizada na região central de São Paulo, no chamado centro velho, nas imediações das estações República, Luz e Anhangabaú do metrô, pra ser mais específico.

Vejo a região como uma espécie de campo de concentração a céu aberto. Ali vidas são degradadas por uma das mais devastadoras drogas que o homem já inventou. Exagero meu? Vejamos.

Cidadãos ”prisioneiros” de um vício, transformados em um exército de “noias” confinados em um território imundo, constantemente vigiados e reprimidos pela polícia e muitas vezes tratados como leprosos pelo restante da população que divide-se entre achar que trata-se de um caso de saúde pública ou simplesmente de polícia, e para os hipócritas de plantão que os encaram como uma afronta às famílias e pessoas de bem. Afronta uma ova! Queria ver se fosse um parente ou amigo desses moralistas e conservadores de meia tigela.

Sou a favor e luto não só pela descriminalização como pela legalização de drogas. E por favor, não me venham com conversa de enriquecer o crime organizado. As indústrias de cigarro e bebidas alcoólicas enriquecem industriais gangsteres que fazem parte de um certo ETA (Exploradores do Trabalho Alheio). As duas drogas em questão (bebida e cigarro), são pesadamente taxadas pelo Estado, tiveram sua publicidade quase banida dos meios de comunicação, e mesmo assim são fartamente consumidas por menores de idade de todas as classes sociais, alguns inclusive incentivados pelos pais, pois segundo a convenção, são drogas socialmente toleráveis. Detalhe: eu bebo e já fumei.

Crack mata? O que o álcool faz de vítimas em acidentes de trânsito causados por irresponsáveis bêbados armados com seus veículos e o tabaco mata de câncer também não está no gibi. Qual a razão então da satanização apenas de Maconha, Cocaína. Crack e companhia? O alcoólatra não é diferente do viciado em crack.

Tem muita família que interdita um parente alcoólatra, dando o mesmo como incapaz para gerir a própria vida. Está mais do que na hora da sociedade as instituições públicas tomarem medidas sérias e humanas, que incluam justiça e saúde. Fica a sugestão: que interditem-se então estes humanos transformados em zumbis indigentes, para que possam ser tratados, e não somente considerados parte do lixo ao qual misturam-se nas esquinas nas noites frias.

E que os sujeitos que ficam em Brasília disputando cargos, indicações e recebendo propinas, dediquem um pouco de seu tempo para agir sem hipocrisia, para que o tema deixe de ser apenas um discurso inconsistente em tribunas e no horário eleitoral gratuito. Vai ter custo monetário? Ok, que seja, usando o dinheiro público com a saúde da coletividade. Nada mais justo.

Mas a quem será que interessa o eterno descaso, a política e de repressão aos usuários e a criminalização das drogas? Indústria de bebidas e cigarros (concorrência)? Políticos defensores da “moral”? Polícia corrupta que se beneficia com o tráfico? Pense, e tire suas conclusões.

Para quem não viu, seguem duas reportagens muito boas. Uma do programa Profissão Repórter da Rede Globo,  a outra do programa A Liga da Rede Bandeirantes.

Se você não é de São Paulo, da próxima vez que vier à terra da garoa, dê uma passadinha na nossa Disneylandia do Crack, e verá um novo Auschwitz. Participe, comente, compartilhe.

Um grande abraço e até a próxima semana.

 

A vida dos outros como ela é

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O Dramaturgo Nelson Rodrigues (parafraseado no título deste post) tem uma frase muito boa que é mais ou menos assim: “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”.

O tema que vou tratar hoje é polêmico, eu sei, e ninguém precisa concordar com as minhas opiniões. Não vou aqui levantar nenhuma bandeira, movimento, etc. Vou apenas expor a maneira como vejo uma situação. De cara, já vou avisando: sou heterossexual, e me orgulho muito dos amigos e amigas homossexuais e heterossexuais que possuo. São seres humanos maravilhosos. Amo a todos sem distinção.

Costumo definir a questão da Homofobia da seguinte maneira: As pessoas incomodam-se demais com a vida alheia, e esquecem de ser felizes vivendo suas próprias vidas.

Estou cada vez mais convicto de que no mundo atual não há espaço para intolerância de qualquer tipo. Apesar de eu mesmo ser intolerante algumas vezes, pois não suporto gente mal educada e ignorante. Mas luto todos os dias para aceitar e compreender a realidade de cada um.

Imagem de uma das capas da Revista Trip de Outubro


Não dá pra fugir da discussão sobre a homofobia, está em todos os lugares. Nas capas da corajosa edição da Trip deste mês (isso mesmo são duas capas), está na TV (a famosa cena do beijo entre Luciana Vendramini e Giselle Tigre, na novela do SBT), nos jornais (infelizmente com mais freqüência nas páginas policiais), no Congresso Nacional, nas ruas, na boca de todo mundo. A discussão já é longa e ganha cada vez mais força. Não tenho utopia de que todas as mentes do planeta mudem, seria bobagem e inocência minha alimentar tal quimera.

Diversidade sexual. Mais do que um tema, título, rótulo, como você queira chamar, o importante é entender que trata-se da discussão da definição do que somos. Nunca gostei de rótulos e divisões, bem e mau, brancos e negros, católicos e protestantes, gordos e magros, feios e bonitos. Somos todos humanos, e ainda bem que cada um de nós é único. As diferenças existem e continuarão existindo. Há um certo narcisismo psicológico inconsciente exemplificado pelo medo do diferente.

O que importa mesmo nessa história é a real capacidade de cada um concentrar-se no seu universo, pensar naquilo que importa para si e para a realização de sua felicidade. A vida do outro e principalmente quando, como, onde e com quem faz sexo, amor, transa, trepa, furunfa, amassa o bombril, acasala, molha o biscoito, troca o óleo, cola o velcro, dá marcha a ré, etc., é um detalhe que não interessa. Não muda em nada a competência do seu chefe, do colega de trabalho, da professora do seu filho, do guarda da esquina, do médico que cuida das suas enfermidades. Ponto. Cada um tem o direito de ser e fazer o que quiser. O corpo é dele (ou dela). Cada um deve viver sua própria vida, reitero.

As relações humanas são imperfeitas, o ser humano é imperfeito. E como disse Jack Endino: “Não tente ficar perfeito. A perfeição é chata”.

Não faça com os outros, o que você não quer que seja feito com você.

A imbecilidade, aliada à pura e simples falta do que fazer gera trogloditas que ignoram o significado de Antropologia e Sociologia, e o fato de que ambas são pura e simplesmente construídas na prática cotidiana, assim como o idioma, que mais do que escrito, é falado, com suas imperfeições coloquiais, dialetos, gírias e corruptelas, a sociedade, da mesma forma, é constituída por indivíduos distintos, com gostos, hábitos, desejos, ambições e formas de amar as mais diversas.

Lembro o caso dos playboys que espancaram uma doméstica em um ponto de ônibus do Rio de Janeiro. A “justificativa” dos criminosos: “Pensávamos que fosse uma puta.” E se fosse uma puta! Que diferença teria? Seria um ser humano da mesma forma. Com direito a viver da forma como escolher. Vou repetir, o grande problema é que as pessoas vivem querendo controlar a vida do outro. O falso moralismo é uma merda.

O Bolsonaro, Crivella e congêneres têm todo o direito de pensar o que quiserem e de assumirem publicamente suas posições, o que eles não têm é direito de incitar a violência e fazer apologia da discriminação e depois ficar se escondendo atrás de imunidades parlamentares e garantias constitucionais que os mesmos violam.

A hipocrisia, a intolerância e o “politicamente correto” Made In Brazil jamais permitiriam que alguém ousasse sair às ruas com uma camiseta escrita “100% branco”, “100% ladrão”, “100% demagogo”, “100% preconceituoso”, “100% puta”, “100% gay”. A questão é maior do que cada um afirmar-se e ter orgulho de si. É entender que o outro é diferente e tem o direito de sê-lo. Ponto.

Passei boa parte da minha infância com quatro primas (de quem muito me orgulho), pobres, negras, de paternidade não assumida, em uma sociedade moralista e preconceituosa, meus olhos vêm as diferenças e o preconceito desde cedo. A humanidade é imbecil e ignorante, tal e qual registrada em Beleza Americana (American Beauty – 1999 – Direção de Sam Mendes).

Máquinas não fazem distinção entre branco, negro, azul, amarelo, romano, grego, troiano, hétero, homo, cristão, umbandista, budista, ou hindu. A urna eletrônica computa da mesma forma os votos de quem elege o candidato de esquerda, centro ou direita, independente de com quem o eleitor vai pra cama, e o que faz nela.

Campanha criada por Oliviero Toscani para a Benetton nos anos 90

Onipotência, onipresença e onisciência versus Liberté, égalité, fraternité.

Não existe nada mais chato do que alguém tentando catequizar os outros, qualquer que seja a causa ou credo defendido. O pensamento é livre, cada um tem o seu, e felizmente não precisamos pagar pra pensar.

O mundo cristão-judaico, com seus dogmas, centralização do poder, autoproclamado como dono da verdade, contribuiu muito para o cenário atual. Não vejo muita diferença entre o modo de pensar de Hitler, do Papa e Pastores Evangélicos. Há alguns anos, em uma conversa com um cidadão protestante falei: Ainda bem que sua ignorância não é contagiosa.

Afinal, seria coerente uma nova inquisição para lançar na fogueira os padres envolvidos em Pedofilia? Em resumo, o Cristianismo não tem moral para falar de amor ao semelhante depois de perseguir e matar milhões na Idade Média, como o fizeram os Nazistas na Segunda Guerra.

Algumas obras para quem quer refletir, abrir a mente, e quem sabe evoluir:

Livros:

A Filosofia na Alcova – Marquês de Sade

Videoclipes:

MadonnaLike A Prayer,Justify My Love e Erotica

MobyWe Are All Made Of Stars

Pearl Jam – “Do The Evolution

Fimes:

Gummo (Vidas Sem Destino – 1997 – Direção de Harmony Korine)

Beleza Americana (American Beauty – 1999 – Direção de Sam Mendes)

O Nome da Rosa (Der Name der Rose – 1986 – Direção de Jean-Jacques Annaud)

A Cor Púrpura (The Color Purple – 1985 – Direção de Steven Spielberg)

Tudo o que defendo é respeito ao próximo. Independente do credo, da cor, e principalmente da orientação sexual. Liberdade. Viva e deixe viver.

Para encerrar, deixo vocês com uma música da Laura Finocchiaro, gravada pelo Cazuza no disco Burguesia que resume meu pensamento.

Não deixe de comentar, compartilhar, participar. Um grande abraço e até a próxima semana.

Tudo é Amor

(Cazuza / Laura Finocchiaro)

Um homem pode se afobar
E pegar o caminho errado
Homem que é homem volta atrás
Mas não se arrepende de nada
Sabe que a vida é pra lutar
Contra um dragão invisível
Que mata os sonhos mais banais
Que acha que é tudo impossível

Um homem que veio do pó
É o que transforma o pó em ouro
Um homem foi criado só
Mas vive em função do outro
Na natureza onde ele é rei
No universo onde não é nada
Na incerteza e no prazer
Na ilusão de ser amado

Tudo é amor
Mesmo se for por carma
Tudo é amor
Pretensão descarada

Um homem nasce pra cagar
Nas regras desse paraíso
Um homem deve procurar
A fruta que foi proibida
No meio dessa multidão
Na escuridão e na agonia
Poder chamar alguém de irmão
E ter um sono bem tranqüilo

Tudo é amor
Mesmo se for por carma
Tudo é amor
Pretensão descarada

Um homem nasce pra brincar
E não pra esculhambar a vida
Um homem nasce pra curar
E cutucar a ferida
Mesmo se for pra transformar
Num inferno um céu conformista
Mesmo se for pra guerrear
Escolha as armas mais bonitas

Pereio subway sound service

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Olá, pessoas. Quero primeiro agradecer a todos que visitaram, divulgaram  e comentaram na semana passada, e também aos que colaboraram para que este blog passasse a existir. Nada disso seria possível sem a imensa força de todos os meus amigos, especialmente Leo e Cabeçudo. Muito obrigado.

Hoje vou falar de transporte coletivo e mais especificamente do Metrô de São Paulo. O que você tem a ver com isso? Caso more aqui na paulicéia, tudo. Se não mora, deve saber que existem projetos desse tipo de transporte para várias cidades do Brasil sendo anunciados como a salvação de todos os problemas da humanidade. Em vez de solução pode ser apenas um paliativo, caso não seja bem planejado, implantado e racionalmente utilizado. Isso quando as obras são concluídas…

O paulistano encara todos os dias multidões, em todos os lugares, para onde quer que você vá, encontrará muita gente. É difícil estar só. Complicado também é estar acompanhado, mas de maneira confortável. Conforto, isso é o que mais falta ao cidadão principalmente na hora de ir para o trabalho ou voltar do mesmo.

Cena comum de superlotação nas estações

Sempre defendi com unhas e dentes o uso do transporte público. Quer um motivo? Nossa frota de carros já é maior que a população do Rio de Janeiro. Basta pra você? Como nossa população também não é pequena. Temos muito a melhorar em quantidade e qualidade, no que é oferecido atualmente. O nosso querido metrô possui 74,3 km de extensão, contra 226 km de Madrid, 418 km de Nova York e Londres com 400 km, para não falar de Xangai com a maior malha do mundo, com seus 420 km de extensão. Para entender melhor do que estou falando veja as imagens:

Mapa do Transporte Metropolitano de São Paulo (inclui CPTM e EMTU)

Mapa do Metrô de Londres

Agora, vou contar uma historinha.

Dia desses estava eu a bordo de um dos trens e na estação Brigadeiro (Linha 2 – Verde), um sujeito “entra”, fica segurando a porta ostensivamente com uma mão e com a outra gesticula chamando outras pessoas: “Vem! Corre, dá tempo!”. Os passageiros (eu, inclusive) que estavam no vagão lançaram olhares desaprovadores para o sujeito, que não deu bola para a velada censura. No exato instante em que as portas se fecharam, o condutor do trem bradou no som: “Não segure as portas! Você atrapalha a vida dos outros!”. Só nesse momento, o cidadão ficou constrangido, decerto, não sabia ele que nos novos trens, existem câmeras em todos os carros da composição. O funcionário do metrô, na minha opinião, merecia aplausos.

A verdade é dura amigos, mas precisa ser dita. Se o serviço não é perfeito, o usuário do sistema também não colabora muito. Não concorda? Ok, então você gosta dos caras que são verdadeiras rádios ambulantes dentro de vagões e veículos em qualquer região da cidade? Também não. Tudo bem, o ser humano é complicado mesmo. Funciona mais ou menos assim: é feio e chato, quando é o outro, ou melhor, se sou favorecido os demais que se danem.

Seria ótimo então se quando o cara segurasse a porta, a voz do Paulo César Pereio soasse no sistema de som: “Solta a porta e segura na minha vara porra!”, e também, “Desliga essa merda de som, porra!”, ou ainda, “Tira o rabo do assento azul, é privativo do idoso, porra!”. Talvez com essa linguagem, coloquial, digamos assim, os caras tomem um pouquinho de semancol.

Lanço desde já a campanha “Pereio subway sound service”!

Para quem não sabe, sempre que um trem do metrô parte atrasado, gera-se um efeito dominó que reflete em todas as linhas afetando a vida de no mínimo quatro milhões de pessoas. E geralmente, tais atrasos, ocorrem por causa de pessoas que não sabem esperar mais dois minutos (o tempo exato para que outra composição chegue à plataforma).

Multidão. Cena comum na estação Sé

É claro que o transporte coletivo de São Paulo está saturado, e como o de outras capitais e grandes cidades do Brasil, precisa melhorar muito. SPTrans, CPTM e Metrô, poderiam ter uma melhor integração e tarifa única, não é senhores Kassab e Alckmin? Afinal, como diria o outro, nunca antes na história deste país, sobrou tanto dinheiro para realizar o essencial, faltam vontade política e competência, então? Copa e Olimpíadas não servem como desculpas para obras de infraestrutura, pois mesmo sem os dois eventos, o povo precisa de qualidade de vida, o que inclui transporte digno.

Há falhas no sistema também. Algumas semanas atrás, a badalada e moderna Linha 4 – Amarela, a primeira administrada pela iniciativa privada, teve uma pane que deixou boa parte da população desacreditada no serviço. Naqueles dias, as estações Luz e República tinham sido enfim inseridas à nova linha, permitindo a integração com as Linhas 1 – Azul e 3 – Vermelha. A tal pane, gerou um transtorno óbvio que durou no mínimo quatro horas e prejudicou milhões de pessoas, significando também prejuízo para muitas empresas.

Plataforma de embarque em estação da Linha 4 - Amarela

E se você já usou a nova linha, reparou que faltam funcionários nas estações? Não se assuste, a ideia é essa mesmo, automatizar o sistema. Tanto que naquela via, não existem condutores, as máquinas andam “sozinhas”. A parceria público-privada não deveria gerar mais empregos? Gostaria então de lembrar aos gênios do governo Serra (afinal isso é herança dele) o artigo 7º da Constituição: “São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:” – Inciso XXVII, do mesmo artigo: “Proteção em face da automação, na forma da lei;”.

Falando em prejuízo, quero fazer aqui um adendo. A Linha Laranja, que está em fase de projeto, foi alvo recente de protestos por parte dos moradores de Higienópolis, contrários à construção de uma estação nas imediações de suas residências, alegando que o metrô traria pobres, ambulantes, etc. Perguntar não ofende: Queridos abastados, vocês não querem que os pobres cheguem aos seus trabalhos? Então por gentileza, permitam que tenham um deslocamento digno, ou podem vocês mesmos encarregaram-se das tarefas executadas por aqueles que encaram todos os dias, duas horas ou mais dentro de ônibus lotados para ganhar o pão. Quantos churrasquinhos ainda serão necessários para que mude a mentalidade dessa gente tacanha? O imposto pago pelo “nobre” vale tanto quanto o desembolsado pelo assalariado.

Claro que existem pontos positivos e iniciativas bacanas, como exposições (Estação Paraíso), apresentações musicais (Estação Tamanduateí), bibliotecas gratuitas (Estações Paraíso e Tatuapé). Já é possível transportar sua bicicleta nos finais de semana, foram instalados assentos especiais para obesos, e o deficiente visual pode embarcar com seu cão-guia. Em geral, a população tem orgulho do Metrô e até se diverte com algumas curiosidades, como por exemplo, por que razão a Estação Paulista (Linha 4 – Amarela) fica situada na Rua da Consolação e a Estação Consolação (Linha 2 – Verde) fica na Av. Paulista?

Mas, a CPTM precisa urgentemente melhorar muitas estações para oferecer o mínimo de conforto ao usuário, a SPTrans precisa agilizar a renovação da frota de ônibus, verdade, que já é bom sinal a aquisição de veículos movidos a Biodiesel.

Enfim, caro leitor, faça a sua parte. Use o transporte coletivo, cobre e faça valer os seus direitos, mas sem deixar de ser civilizado e respeitar o próximo. Todos ganham.

E se quiser opine, deixe seu comentário. Até breve.

“Teen spirit” aos 20 anos

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Decidi começar o blog com um assunto muito comentado durante o último mês, o aniversário de 20 anos de lançamento de “Nevermind”, segundo álbum do Nirvana, porque o tal disco me lembra histórias da minha vida, e esse blog também será utilizado de forma autobiográfica, o que terá como conseqüência a publicação ocasional de algumas memórias.

Também pesou na minha decisão tratar deste assunto justo na estréia, para deixar claro que geralmente as artes (Música, Literatura, Cinema, Teatro, etc.) terão um espaço mais abrangente do que outros temas, mas nada impede que um dia você encontre aqui um post sobre Política, por exemplo. Também quero deixar claro que o Nirvana, não é minha banda favorita. Quem me conhece, bem sabe que esse posto é ocupado pelo Cure.

Vamos a “Nevermind” então.

Durante o mês de setembro, muitos amigos me perguntaram qual a minha música favorita do dito cujo? A resposta é: Lounge Act.

Para justificar, começo explicando que “Smells Like Teen Spirit” não vale. É uma das melhores músicas de todos os tempos. Ok . Você deve pensar que hoje é fácil falar, depois de inúmeras audições ao longo dessas duas décadas.

Lounge Act , na minha humilde opinião, contém as grandes marcas da sonoridade do Nirvana e de Kurt Cobain como compositor: uma melodia que você pode assobiar (tente tocar essa música no seu violão para fazer uma graça com as meninas no próximo luau ou camping e veja o resultado), embalada por guitarras pesadas, um baixo em perfeita sintonia rítmica com a bateria matadora, cortesia da atuação magistral de David Grohl e também de Butch Vig como produtor, afinal, a gravação e mixagem da bateria em “Nevermind” é um trabalho impecável (como também são os realizados pelas duplas Lars Ulrich / Bob Rock no “Black Album” do Metallica, Igor Cavalera / Andy Wallace em “Chaos A.D.” do Sepultura e João Barone / Liminha em “Selvagem?” dos Paralamas do Sucesso, só para citar e fazer justiça a outros grandes trabalhos de bateristas e produtores).

Claro que a famosa produção de “Nevermind” não desmerece o som direto e cru de “Bleach” (produção de Jack Endino) e muito menos o desleixo estudado de “In Utero” (produzido por Steve Albini), uma vez que ambos captam a anarquia e espontaneidade da banda.

Mas não tem como escapar dos truques do produtor, como os famosos e um tanto polêmicos vocais dobrados, sugestão de Vig, sabedor do fascínio de Cobain por John Lennon (já ouviu “In Bloom” direitinho?), ou a massa sonora de guitarras pulando de um canal para o outro (“Breed”), além de outros barulhos esquisitos na introdução de algumas faixas (ouvir música com fones serve pra prestar atenção na produção do disco e não para deixar você surdo, ok?).

Porém, o que quero compartilhar com você, leitor, é a influência que a música, ou para ser mais específico, uma banda, pode ter na vida de alguém. Vamos direto ao ponto.

A geração que cresceu e/ou amadureceu ouvindo “Nevermind”, hoje, começa a encabeçar corporações e governos mundo afora, e o mercado começa a valorizar profissionais que gostam de rock (principalmente em áreas que envolvem criatividade). Nasci com uma alma punk (sim, o Nirvana era um banda punk, queiram/gostem alguns ou não), e acredito que muito do modo como encaro a vida é reflexo desse espírito anárquico e contestador.

Para confirmar esse meu espírito, Nevermind pintou na minha vida em um momento que anunciava turbulências pessoais. Era então 1992 (aqui no Brasil, eu como muitos, descobri o disco um ano depois de lançado) e um belo dia, cheguei em minha casa após uma viagem que não lembro exatamente para onde (acho que para a casa de uma tia), ligo o rádio e ouço nada menos que “Smells Like Teen Spirit”. Alguns dias depois o rádio já tocava “Come As You Are”, e o mundo estava dominado. Aquilo foi como um soco nos meus ouvidos, fiquei maravilhado e curioso.

São momentos assim que fazem com que moleques de 15, 18 anos de idade, deixem o cabelo crescer e resolvam montar uma banda, leiam livros, vejam filmes, enfim, possam imergir em cultura, abrir a mente. Agora me diga, qual o artista que consegue provocar esse tipo de reação hoje? E creia, “Nevermind” não é o último prego no caixão do rock como imaginam alguns. Grandes discos foram e continuarão a surgir (está mais raro é verdade), “OK Computer” do Radiohead é a grande prova da capacidade de reinvenção do estilo.

Para finalizar, conto duas historinhas que ilustram a presença do Nirvana na minha vida:

Desde 1994, eu freqüentava assiduamente a Galeria do Rock (não a galeria do Largo do Paissandu, pois eu não morava em São Paulo, nessa época eu era mais um dos habitantes da ensolarada Fortaleza, e aos sábados, era figura fácil na Galeria Pedro Jorge, no centro da cidade. Ia sempre para a Opus Discos, loja do meu querido amigo Tony Cochrane.

O “MTV Unplugged In New York”, também conhecido como “Acústico do Nirvana” tinha acabado de sair do forno. Primeiro disco póstumo da banda. Sentei no chão da loja, acendi um cigarro (eu ainda fumava), o som começou a rolar e eis que senta ao meu lado um sujeito que me pede um cigarro, e emenda com uma pergunta: Também gosta de Nirvana? Para minha surpresa, a figura com quem estava conversando e que logo se tornaria um grande amigo (até hoje!), era o Marquinhos, meu parceiro de grandes aventuras no Domínio Público (um lugar com muitas histórias que merece um post, quem sabe?). Nem preciso dizer que fizemos amizade na mesma hora. Talvez a gente até já se conhecesse antes. As farras da década de 90 fizeram alguns estragos na minha memória.

Alguns meses antes do episódio acima, conheci uma pessoa de quem ouvia muito falar, o vocalista e guitarrista do Dago Red, banda mais que Cult do indie rock cearense nos anos 90. O cidadão trabalhava na outra loja do Tony, a Opus Aldeota. Fui lá um dia para fazer manutenção no computador da loja. Um cara baixinho e magro, me recebeu com uma piada que envolvia os salgados vendidos numa padaria próxima, e eu vestindo minha antológica camiseta do “In Utero”, que ainda resiste bravamente ao tempo. Início de uma amizade infinita, com o Robério, um cara que considero um irmão. Culpa do Nirvana, que fez com que enfim eu encontrasse a minha turma. Parceiros de muitas loucuras.

Agradeço e celebro meus amigos esperando que outros discos façam pelos garotos de hoje o que um dia “Nevermind” fez por mim. Até breve.

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