Se o público boicotasse o Lollapalooza?

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Não ia falar de música hoje, porém, não dá pra ficar indiferente a essa história envolvendo Lobão e a organização do Festival Lollapalooza.

Primeiro vou falar da atitude de Lobão. Acho legal alguém comprar a briga do respeito aos nossos artistas e à música brasileira e sugerir o boicote das bandas ao evento, ainda mais depois da hilária entrevista do Perry Farrell à Folha de S. Paulo (confira aqui).

Pode-se chamar Lobão de maluco ou qualquer outra coisa, o que ninguém pode negar é que o cara defende suas ideias, dá a cara pra bater, e não se preocupa em agradar ou não a quem quer que seja. Ponto pra ele. Admiro quem tem coragem de fazer isso. E não se esqueçam de que a criatura lupina já comprou brigas históricas a favor da independência artística própria e alheia, como a numeração de CDs, por exemplo.

Veja o vídeo publicado pelo músico:

O problema é que esse tipo de boicote não funciona, a classe (músicos) é desunida por natureza. Duvida? O debate organizado pela Revista Bizz, publicado na edição de fevereiro de 1988, ao qual inclusive, Lobão e outros (Cazuza, Roger e Marcelo Nova, por exemplo) não compareceram, comprova (texto na íntegra aqui). Também não daria certo o boicote, porque sempre vai ter alguém disposto a aceitar de bom grado os trinta dinheiros ou os 15 minutos de fama.

Honestamente, quem vai a esse tipo de evento, tá louco mesmo é pra ver as atrações gringas, muito por conta da escassez de shows por aqui, que diminuiu muito é verdade, e também por que o músico brasileiro está ao alcance dos olhos e dos bolsos bem mais facilmente e com freqüência indiscutivelmente maior.

A polêmica de regalias aos estrangeiros e problemas com os brasileiros não é de hoje. Pepeu Gomes sofreu no Rock In Rio I (1985), o Ira! também no Hollywood Rock de 1988, se não me falha a memória. É sempre a mesma merda envolvendo qualidade do som, luz, brigas com seguranças e produtores, etc. Quem tiver outra edição da Bizz (de Janeiro de 2000, acho) que fala sobre os 15 anos do primeiro Rock In Rio, também pode conhecer algumas histórias interessantes de bastidores, como os chiliques de Freddy Mercury.

Capa da edição de fevereiro de 1988 da revista Bizz

Talvez fique mais claro hoje, porque a Legião Urbana por exemplo, nunca tocou em Festival, e olha que reza a lenda, que chegaram a oferecer uma noite só para a banda em uma edição do Hollywood Rock. Renato Russo com certeza sabia muito bem como funcionavam as coisas no showbusiness.

Quem tinha que fazer boicote mesmo é o público, ainda mais depois da palhaçada da venda de ingressos para os pré-cadastrados. Já tem cambista vendendo entradas por R$ 900,00.

Não ir e dar um baita prejuízo aos organizadores e patrocinadores seria a única maneira de fazer com que houvesse respeito, organização, e o mínimo de conforto (que faltou no SWU, por exemplo) para quem paga a brincadeira e enche os bolsos de gente como Perry Farrell, que vem correndo pra cá ganhar uns trocados depois que a economia dos Estados Unidos e da Europa está indo pro brejo, e ainda por cima revelar sua ignorância e demonstrar arrogância, como se estivesse fazendo o favor de trazer a civilização para os aborígenes da América Latina (ops, né Perry Farrell?).

Vá fazer festival na China (de economia até melhor que a nossa). Quem sabe a cultura musical deles seja compatível com a sua. Faça um disco que as pessoas amem, venda bastante, e talvez o Jane’s Addiction consiga abrir o show da Ednéia Macedo (veja o video) no próximo Rock In Rio.

Participe, comente, compartilhe.

Um grande abraço e até a próxima semana.

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“Teen spirit” aos 20 anos

2 Comentários

Decidi começar o blog com um assunto muito comentado durante o último mês, o aniversário de 20 anos de lançamento de “Nevermind”, segundo álbum do Nirvana, porque o tal disco me lembra histórias da minha vida, e esse blog também será utilizado de forma autobiográfica, o que terá como conseqüência a publicação ocasional de algumas memórias.

Também pesou na minha decisão tratar deste assunto justo na estréia, para deixar claro que geralmente as artes (Música, Literatura, Cinema, Teatro, etc.) terão um espaço mais abrangente do que outros temas, mas nada impede que um dia você encontre aqui um post sobre Política, por exemplo. Também quero deixar claro que o Nirvana, não é minha banda favorita. Quem me conhece, bem sabe que esse posto é ocupado pelo Cure.

Vamos a “Nevermind” então.

Durante o mês de setembro, muitos amigos me perguntaram qual a minha música favorita do dito cujo? A resposta é: Lounge Act.

Para justificar, começo explicando que “Smells Like Teen Spirit” não vale. É uma das melhores músicas de todos os tempos. Ok . Você deve pensar que hoje é fácil falar, depois de inúmeras audições ao longo dessas duas décadas.

Lounge Act , na minha humilde opinião, contém as grandes marcas da sonoridade do Nirvana e de Kurt Cobain como compositor: uma melodia que você pode assobiar (tente tocar essa música no seu violão para fazer uma graça com as meninas no próximo luau ou camping e veja o resultado), embalada por guitarras pesadas, um baixo em perfeita sintonia rítmica com a bateria matadora, cortesia da atuação magistral de David Grohl e também de Butch Vig como produtor, afinal, a gravação e mixagem da bateria em “Nevermind” é um trabalho impecável (como também são os realizados pelas duplas Lars Ulrich / Bob Rock no “Black Album” do Metallica, Igor Cavalera / Andy Wallace em “Chaos A.D.” do Sepultura e João Barone / Liminha em “Selvagem?” dos Paralamas do Sucesso, só para citar e fazer justiça a outros grandes trabalhos de bateristas e produtores).

Claro que a famosa produção de “Nevermind” não desmerece o som direto e cru de “Bleach” (produção de Jack Endino) e muito menos o desleixo estudado de “In Utero” (produzido por Steve Albini), uma vez que ambos captam a anarquia e espontaneidade da banda.

Mas não tem como escapar dos truques do produtor, como os famosos e um tanto polêmicos vocais dobrados, sugestão de Vig, sabedor do fascínio de Cobain por John Lennon (já ouviu “In Bloom” direitinho?), ou a massa sonora de guitarras pulando de um canal para o outro (“Breed”), além de outros barulhos esquisitos na introdução de algumas faixas (ouvir música com fones serve pra prestar atenção na produção do disco e não para deixar você surdo, ok?).

Porém, o que quero compartilhar com você, leitor, é a influência que a música, ou para ser mais específico, uma banda, pode ter na vida de alguém. Vamos direto ao ponto.

A geração que cresceu e/ou amadureceu ouvindo “Nevermind”, hoje, começa a encabeçar corporações e governos mundo afora, e o mercado começa a valorizar profissionais que gostam de rock (principalmente em áreas que envolvem criatividade). Nasci com uma alma punk (sim, o Nirvana era um banda punk, queiram/gostem alguns ou não), e acredito que muito do modo como encaro a vida é reflexo desse espírito anárquico e contestador.

Para confirmar esse meu espírito, Nevermind pintou na minha vida em um momento que anunciava turbulências pessoais. Era então 1992 (aqui no Brasil, eu como muitos, descobri o disco um ano depois de lançado) e um belo dia, cheguei em minha casa após uma viagem que não lembro exatamente para onde (acho que para a casa de uma tia), ligo o rádio e ouço nada menos que “Smells Like Teen Spirit”. Alguns dias depois o rádio já tocava “Come As You Are”, e o mundo estava dominado. Aquilo foi como um soco nos meus ouvidos, fiquei maravilhado e curioso.

São momentos assim que fazem com que moleques de 15, 18 anos de idade, deixem o cabelo crescer e resolvam montar uma banda, leiam livros, vejam filmes, enfim, possam imergir em cultura, abrir a mente. Agora me diga, qual o artista que consegue provocar esse tipo de reação hoje? E creia, “Nevermind” não é o último prego no caixão do rock como imaginam alguns. Grandes discos foram e continuarão a surgir (está mais raro é verdade), “OK Computer” do Radiohead é a grande prova da capacidade de reinvenção do estilo.

Para finalizar, conto duas historinhas que ilustram a presença do Nirvana na minha vida:

Desde 1994, eu freqüentava assiduamente a Galeria do Rock (não a galeria do Largo do Paissandu, pois eu não morava em São Paulo, nessa época eu era mais um dos habitantes da ensolarada Fortaleza, e aos sábados, era figura fácil na Galeria Pedro Jorge, no centro da cidade. Ia sempre para a Opus Discos, loja do meu querido amigo Tony Cochrane.

O “MTV Unplugged In New York”, também conhecido como “Acústico do Nirvana” tinha acabado de sair do forno. Primeiro disco póstumo da banda. Sentei no chão da loja, acendi um cigarro (eu ainda fumava), o som começou a rolar e eis que senta ao meu lado um sujeito que me pede um cigarro, e emenda com uma pergunta: Também gosta de Nirvana? Para minha surpresa, a figura com quem estava conversando e que logo se tornaria um grande amigo (até hoje!), era o Marquinhos, meu parceiro de grandes aventuras no Domínio Público (um lugar com muitas histórias que merece um post, quem sabe?). Nem preciso dizer que fizemos amizade na mesma hora. Talvez a gente até já se conhecesse antes. As farras da década de 90 fizeram alguns estragos na minha memória.

Alguns meses antes do episódio acima, conheci uma pessoa de quem ouvia muito falar, o vocalista e guitarrista do Dago Red, banda mais que Cult do indie rock cearense nos anos 90. O cidadão trabalhava na outra loja do Tony, a Opus Aldeota. Fui lá um dia para fazer manutenção no computador da loja. Um cara baixinho e magro, me recebeu com uma piada que envolvia os salgados vendidos numa padaria próxima, e eu vestindo minha antológica camiseta do “In Utero”, que ainda resiste bravamente ao tempo. Início de uma amizade infinita, com o Robério, um cara que considero um irmão. Culpa do Nirvana, que fez com que enfim eu encontrasse a minha turma. Parceiros de muitas loucuras.

Agradeço e celebro meus amigos esperando que outros discos façam pelos garotos de hoje o que um dia “Nevermind” fez por mim. Até breve.

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